Eu tento não rir da ironia de nós dois.
Duas almas desesperadas por afeto, invocadas pelo universo. Nós só queríamos ser felizes, pelo menos no começo. Prolongar aquela sensação gostosa na boca do estômago, a intensidade dos nossos toques, o desespero nas entrelinhas do nosso beijo. O encaixe era tão perfeito que negar a exatidão com a qual fomos feitos um para o outro parecia pecado.
Nós éramos a morte um do outro. Não literal, mas a carta do tarô. A representação macabra da transformação. A bifurcação exata entre aprender com os nossos erros ou, repetí-los.
A chance de mudança.
A relação mais difícil, porém a mais importante.
E tal qual explica a psicanálise, nós éramos o espelho um do outro. O mesmo medo de abandono, a mesma necessidade de agradar, a angústia de perder. Um cenário arquitetado pelo próprio universo para que fossemos, juntos, a oportunidade de aprender.
De mudar.
De crescer.
Talvez por isso a sensação de que tudo fosse possível. De que o futuro que sonhávamos noite após noites, deitados no colchão da sala enquanto você jogava qualquer coisa no playstation fizesse tanto sentido e não deixava aquele gosto de impossível na ponta da língua. O beijo nunca contido, sempre intenso. E essa necessidade, sempre tão angustiante, de nunca conseguir estar longe. De detestar estar longe.
Você sempre me pareceu a melhor coisa que o universo poderia ter criado pra mim e, mesmo quando você começou a deixar de ser, mesmo quando o nosso elástico começou a esticar, eu acreditei.
Em você.
Em nós.
“Soltar não é uma opção”, você dizia.
E não era.
Nós só queríamos a chance de saber o que era ser feliz, juntos. Queríamos cometer nossos próprios erros, brigar pela toalha molhada em cima da cama. Discutir quem ia lavar a louça na pia. Esquecer de tirar o lixo. Discutir porque você passou tempo demais jogando, ou porque eu passei tempo demais escrevendo. Aprender. Desaprender. Ressignificar.
Acordar embolada com você no meio da madrugada, te acordar com um beijo e pedir pra chegar mais perto. Pra me abraçar mais forte. Pra me amar mais uma vez, antes do sol aparecer, e me fazer encarar a realidade dos problemas debaixo do nosso tapete. Sentir o cheiro de café na prensa francesa e o seu beijo estalado na minha testa. Fazer apostas aleatórias, ora perder, ora ganhar. E rir. Até a barriga doer. Da dancinha na porta do banheiro, dos atrasados planejados e dos jogos que eu nunca consegui pronunciar os nomes.
Viver, em toda a extensão e intensidade que a palavra comporta.
E eu amava você.
Pior, eu tinha esperança em você.
Mesmo quando você me destruía. Me deixava arrastar pelo chão, implorando para você reconsiderar, pra não esticar ainda mais um fio que já estava no seu limite. Eu tinha esperança em você. Porque mudar não é fácil e o novo é assustador, mas nós éramos almas da mesma chama e a nossa história estava fadada a essa vida então, se eu conseguia, eu tinha certeza de que você conseguia também.
É estranho pensar que duas pessoas tão iguais tenham feito escolhas tão diferentes.
Eu, com um conhecimento excruciante sobre mim mesma. Às vezes difícil de admitir, mas sempre com aquele gosto de quero mais na ponta da língua. Não mais com o sorriso que te fazia sorrir junto, mas sem carregar aquela ânsia que me tirava o apetite e me deixava noites sem dormir. Liberta do medo de perder, ainda resiliente na esperança de vencer.
Aprendendo a viver, eu diria, mas com as minhas conquistas. Conquistas essas que não teriam se manifestado se eu não tivesse vivido você. A morte. Lenta, dolorosa, mas misericordiosa o suficiente para me dar mais do que eu mereço e me deixar renascer melhor do que eu morri.
Em dor, sim, porque renascer é muito pior do que morrer.
Mas feliz.
Embora seja um sentimento irritantemente abstrato e que não retrata, nem de perto, o alívio que percorre o meu peito sempre que eu acordo de manhã, com o seu lado da cama vazio e seu cheiro desaparecido dos meus lençóis.
Sim, feliz.
E você, no início da sua história.
Exatamente no mesmo ponto de partida. Vivendo os mesmos dias que, um dia, você tanto repudiou. Se frustrando com uma companhia que nunca te satisfaz. Tentando domar a sua alma inquieta nas noites em que a vida não te deixa esquecer o que deixou pelo caminho. Comendo o resto de uma comida que você não gosta. Se sufocando em uma atenção que não suporta. Agonizando em um prazer que não é seu.
Covarde nas suas certezas. Mentiroso nas suas verdades.
Fraco, em todos os sentidos da palavra.
Trancafiado em uma gaiola na qual você mesmo colocou o cadeado. Se iludindo com a ideia de que fez a melhor escolha enquanto seus ossos atrofiam, dia após dia, indignados com a realidade imposta. Insatisfeito com a vida, mas sempre orgulhoso demais para admitir que errou. Resiliente na dor, é verdade, mas inconformado com a ausência de esperança. Percebendo, aos poucos, que você é o seu carrasco, renegando o próprio reflexo porque se olhar demais vai perceber a verdade por trás das memórias que não te deixam em paz.
Quando eu penso em nós, eu penso no mito da caverna.
Platão foi o primeiro livro que eu te emprestei e o primeiro que você nunca leu. Uma reflexão quase sarcástica onde eu sou a pessoa que se joga na luz e nunca mais olha para trás, enquanto você volta para dentro da caverna, desesperado, com medo do que o sol pode fazer com os seus olhos se encará-lo por tempo demais. Eu, vivendo a verdade, enquanto você vive de ilusões.
Poético, não vê?
Você ficou no começo de tudo.
E eu, no fim.




UAL!