Eu me pergunto se o silêncio ecoa em você tanto quanto em mim. Se você sente seu estômago arder, se a sua respiração trava na boca do estômago e se uma parte de você fantasia a ideia de quebrar algumas coisas pela casa. Deixar o ódio diluir em um grito abafado no travesseiro.
Ele também te enlouquece?
Apresenta uma realidade completamente diferente da que está diante dos seus olhos e você se pergunta: “mas será que eu não entendi?”. Você também caminha pela casa, madrugada afora, relendo conversas e tentando encontrar pontas soltas nas entrelinhas simplesmente porque não consegue afastar a sensação de que algo está errado? Acorda numa terça-feira acreditando que as coisas finalmente se acalmaram, que a vida entrou no eixo e que, pela primeira vez em semanas, você pode respirar – mas termina o dia com o rosto inchado, com ódio do mundo e com medo de estar insistindo numa escolha errada que, por algum motivo, ainda parece certa?
Para mim, você tem a tristeza de uma pintura de Hans Holbein. Não que você seja triste, mas porque foi assim que ele te construiu pra mim. Ora demônio, ora alma crucificada em um calvário. Um dia responsável por todas as mazelas da vida dele, no outro, alguém que não sabe o que faz.
Ele te perdoa por crimes que você não cometeu. Te desenha como um arrependimento, mas quando te olha nos olhos, as palavras se transformam em exatamente aquilo que você gostaria de ouvir. Então você nunca sabe em qual versão acreditar, mas a dele tem gosto de chocolate quente em uma noite fria, confortável e aconchegante como palavras deveriam ser. E você se joga, afinal, a outra opção é encarar a realidade de que talvez, só talvez, ele seja o lobo em pele de cordeiro.
Eu sei.
Eu sou o outro lado da moeda.
Para você, eu sou louca. Para mim, você é o diabo.
Duas peças de xadrez em lados opostos do tabuleiro brigando pelo mesmo rei.
E eu me pergunto, mesmo que sem querer, se poderíamos ter feito diferente. Se em algum lugar dessa história confusa, tivéssemos tomado o controle e ao invés de lutarmos uma contra outra, lutássemos contra ele. Se ao invés de nos odiar pelas consequências das nossas próprias emoções, houvesse um entendimento silencioso de que o inimigo tem nome e não é o nosso. Que somos, sim, vítimas das nossas angústias e do medo de perder algo que, durante muito tempo, se apresentou como tudo.
Nós somos as únicas duas pessoas do mundo que vão entender. A ansiedade corroendo o estômago dia após dia. A sensação de estar alerta o tempo todo, de querer – desesperadamente – confiar, mas se punir silenciosamente por não conseguir. De não dormir. De não querer acordar. De se perguntar, o tempo todo, como escapar desse labirinto. Do medo de descobrir, a qualquer momento, que todas aquelas palavras bonitas eram, de fato, apenas palavras. De ouvir, de novo e de novo, que foi só “um deslize”, de se culpar. De desculpar. E de acreditar que o inimigo está do outro lado da cidade, planejando o próximo movimento quando, na verdade, ele dorme do nosso lado todas as noites.
E eu me culpo.
Não por ele, mas por você.
Por ter acreditado cegamente em um discurso que nunca me pareceu totalmente certo. Por nunca ter feito as perguntas certas. Por ter me deixado levar pela lábia que você conhece bem melhor do que eu. Eu não sabia. E mesmo depois, com as cartas na mesa e corações quebrados a gente nunca sabe o que é verdade, o que é mentira e fica fácil se perder em todas as informações.
Você não queria perder.
Eu também não.
Mas o que é ganhar, então?
Eu acordo todos os dias pensando se o que ele diz é verdade. Se você é a carcereira que ele diz que é. Terrível e mentirosa. Manipuladora. Obcecada por um poder que ele jura de pé junto que jamais irá ceder. Que a punição subjugada a você é a solidão, a ausência e rejeição.
Ele costumava dizer que se arrependia de você. Em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, não só pra mim. E uma parte de mim se perguntava se você também não ouvia o mesmo discurso, em tom de vaidade, acompanhado de uma frustração que – claramente – não era sobre nós, mas sobre ele. Eu não quero. Eu não posso. Eu não sei o que fazer. Promessas atrás de promessas, todas vazias. Deslizes. Mentiras. Meias verdades. Omissões. Discursos ensaiados com falas construídas exatamente da forma como fantasiamos.
“Eu amo você”.
“Eu quero você”.
“Eu não consigo”.
Eu posso te culpar pelas batalhas, mas a guerra nunca foi nossa. Você acreditou nas mesmas histórias que eu, porque quando o enredo é bom, não queremos que o livro acabe. E quando amamos, nos agarramos as migalhas de verdade, porque é melhor do que encarar a realidade nos olhos. Eu não queria que fosse mentira. Eu queria acreditar que a pessoa diante de mim, por mais turbulenta que fosse, tinha boas intenções. E que ele jamais mentiria, não pra mim.
Você sentiu a mesma coisa? Entre um ódio e outro, enquanto escrevia desesperadamente as piores coisas sobre mim? Um desejo ardente de que eu fosse, verdadeiramente, a maior culpada de tudo para que, então, ele pudesse ser o herói da sua história? Eu já, algumas vezes. Porque é mais fácil assim, não é? Se você não gosta do vilão da história, você o muda. E passa a justificar essa agonia no peito que não te deixa dormir com outro nome, porque se você vacilar, mesmo que por um segundo, se torna impossível negar a verdade.
E a nossa verdade dói.
Minha e sua.
A dor que você sentiu, eu também senti. Esse grito entalado na garganta. A dúvida. O talvez. A sensação desesperadora de acreditar que agora seria diferente, só para entender, mesmo que muito tarde, que não vai ser – e ainda assim, por pura teimosia, se recusar a desistir. E chorar. Muito. O tempo todo. Desabafar. Contar a mesma história de novo, de novo e de novo só pra ter certeza de que você não entendeu errado e mesmo assim, no final, ainda dormir com a sensação de que nada faz sentido, mesmo ele sussurrando no seu ouvido que faz.
E se punir pela indiferença. Por ter feito a pergunta errada. Por ele se fechar, se afastar e colocar na nossa conta erros que não cometemos. Por se sentir louca. Por querer brigar. E depois ouvir que a mulher que ele amava jamais reagiria assim. Que ele não aguenta mais brigar, que ele está cansado de tudo e que nós não conseguimos dar a paz que ele busca.
E você? Ainda aguenta brigar?
Porque eu não.
Eu não consigo mais fingir que eu acredito que você seja o problema. Nem que eu te odeio. E nem que você é responsável pelo inferno que vivemos. Você sou eu. Apenas uma peça num jogo sórdido de alguém que sequer sabe o que está fazendo. Sem estratégia. Sem certezas. Apenas impulsos.
Eu não quero.
E é por isso que eu quero perder a guerra. Derrubar o rei do meu tabuleiro e entregar nas suas mãos. Eu não posso desfazer as palavras ditas, as ofensas trocadas e nem a dor causada, mas eu posso reescrever a história com cada personagem no seu devido lugar e você, não mais o diabo, não mais o demônio, não mais meu inimigo.



