O autor
Eu, que durante meses me achei compositora de nós, me descobri apenas uma mera personagem.
Eu te escrevi como poesia. Amarga, cruel, ainda que bonita. Persegui palavras para te formar no papel e ancorar em qualquer frase a fantasia que inventei sobre nós dois. Na ficção, nós somos uma história bonita. Improvável. Cheia de obstáculos. Um romance de mais de quinhentas palavras com nuances, aprendizados, manhãs com cheiro de café recém coado e pés embolados debaixo do lençol. Um enredo bem construído, com personagens exageradamente desenvolvidos, cenários calculados e diálogos ensaiados na ponta da língua.
Uma mentira, é claro.
Eu, que durante meses me achei compositora de nós, me descobri apenas uma mera personagem. Reescrita aos olhos do outro sem chance de redenção, condenada sem diálogos e enganada pelo meu próprio criador. Vendida por uma sinopse superficial de um romance onde o amor – supostamente – supera tudo, mas sacrificada na primeira oportunidade porque o herói sempre precisa de mais.
E é engraçado como ele sempre precisa de mais, não?
No enredo da sua vida eu me tornei antagonista e, você, a vítima daqueles capítulos mal escritos, das escolhas equivocadas e diálogos omissos. Parafraseando Taylor Swift: “Quando você é jovem, eles presumem que você não sabe nada” e quando não se sabe de nada, é difícil se responsabilizar por tudo. E eu? Me tornei apenas um fragmento de quem eu achei que era, escondida nas entrelinhas da sua vilania disfarçada de heroísmo, obrigada a carregar a culpa das suas escolhas como se fossem minhas. Refém de palavras bonitas, promessas vazias e histórias contadas pela metade. Ansiosa por um final que nunca veio, de um livro que você nunca terminou de escrever.
Você mentiu tanto nas suas palavras que a ficção e a realidade se tornaram uma coisa só. Eu não sabia mais se as minhas palavras eram minhas ou apenas um reflexo infundado do apavoro que eu sentia na boca do meu estômago sempre que o seu celular acendia em cima da mesa. Eu não conseguia mais pensar, só sentir. Medo de você, medo de mim, medo de prestar um pouco mais de atenção e o mundo desmoronar diante dos meus olhos mais uma vez.
E eu te odiei, é claro.
Como não odiar? Você era para ser a história mais bonita já escrita e se tornou meu carcereiro. O algoz do qual eu não consigo me livrar, o monstro debaixo da minha cama que não me deixa dormir. A prisão de passar dia após dia me questionando “e se” de uma resposta que já foi escrita em pedra há muito tempo. Você é quem é, eu sou quem eu sou e o mundo que um dia eu achei que chamaria de nosso, hoje é apenas um cemitério de memórias de um enredo que tinha tudo para ser o melhor, mas não foi.
No final eu fui, e talvez ainda seja, a sua válvula de escape para a realidade cruel da qual você quer tanto escapar. Do vazio da sua vida simplória, do descontentamento com o morno, da ausência de ímpetos nos seus dias. Talvez amor, quem sabe, mas muito mais todo o resto.Um artifício literário para uma virada de enredo dramática – nunca uma pessoa que foi ferida pela sua série de escolhas ruins.
Cúmplice dos crimes que você arquitetou sem eu saber.
Mas eu sou culpada, sim, admito. Houve a escolha de acreditar no improvável, até porque, qualquer coisa ao contrário da verdade que você me apresentava era “coisa de novela”. O homem que diz me amar com palavras bonitas e gestos elegantes não iria me ferir, não é? Seria desonesto da minha parte questionar a sua verdade. “Você realmente acha que eu estou mentindo?”, você dizia, com a voz aveludada e a testa encostada na minha enquanto os dedos acariciavam o meu rosto em movimentos ensaiados de distração. “Não”, eu sempre respondia, com o estômago embargado e um medo infundado de fazer você pensar que eu não confiava em você. Até porque, se eu te amava, eu precisava confiar.
Só que a verdade é sempre mais cruel que a mentira e só os covardes fogem dela. E ela veio, sem avisar, pelos olhos dos outros, de tal forma que não se podia negar. Eu vi a sua boca tremer, sua respiração descompassar e, então, eu soube: a nossa história era apenas um rascunho mal feito de algo que você nem ao menos tinha certeza se queria. E eu? A promessa que você nunca pretendeu cumprir.
Você escrevia que eu era o amor da sua vida, mas me moldou como o problema central de histórias que nem eram minhas. E no final, a sua ansiedade nunca foi sobre o nosso romance inacabado, mas sobre a qualidade da sua escrita e como seus leitores te percebiam. Se construir herói pode até funcionar, mas nem o melhor dos enredos disfarça um caráter duvidoso.
Então, eu me despeço aqui. Não por não acreditar que pessoas mudam, que finais felizes não são possíveis, mas porque eu escolhi o livro com um enredo que não era pra mim. O que eu chamei de amor era só ego mal disfarçado, e o que eu chamava de nós, era só eu, tentando fazer sentido sozinha.
Agora, pela primeira vez, eu escrevo de novo.
Por mim.
Pra mim.
E dessa vez, a história é minha.



